Ricardo Nuno Almeida

Um blog com cenas

Entrevista com… Nuno Santos

(originalmente publicada no ForaDeJogo.com em 2010-12-14)

Apareceu nos grandes palcos há quase quinze anos atrás, com o emblema do Vit.Setúbal ao peito, agilidade e reflexos muito acima da média e uma vontade do tamanho do mundo de lutar para evoluir e galgar degraus rumo ao estrelato. De exibição fantástica em exibição fantástica acabou por conseguir construir uma reputação de excelência e a trilhar uma carreira invejável, que até agora o levou a cinco países diferentes e a conviver com algumas das maiores figuras do futebol nacional e mundial. A fama não lhe retirou a personalidade simples e acessível, e assim Nuno Santos concordou em conceder uma entrevista para recordar o seu percurso, contar algumas das suas experiências, e partilhar as conclusões que 20 anos em alto nível lhe permitiram retirar.

Não é para dar vantagem aos oponentes, mas quais os seus pontos fortes e as suas fraquezas?

Sou muito rigoroso na análise ao meu desempenho nos jogos e treinos e penso que o meu ponto forte sempre foi o um contra um, quando um jogador aparece isolado com o guarda redes gosto de sentir essa adrenalina. Quanto ao ponto menos forte: a saída da baliza pelo ar, geralmente tão difícil para os guarda-redes devido ao tempo exacto de saída. Mas com a experiência que fui adquirindo nos treinos e jogos melhorei bastante e hoje sinto-me perfeitamente à vontade com essa situação.

 

Preferências clubísticas: que emblema o faz vibrar?

Fui formado nas escolas do Vitória de Setúbal e uma das minhas melhores épocas foi com essa camisola, daí ter um carinho especial por esse clube. Mas por tudo o que me proporcionou na minha carreira desportiva e na minha vida particular, porque ainda hoje me continua a abrir portas a nível nacional e internacional, e porque foi um sitio onde sempre fui tratado com respeito e carinho, o meu clube foi e há-de ser sempre o S.L.Benfica.

 

Ídolos e referências, todo o jogador e adepto tem algum. Quem o inspira?

Nunca tive um só ídolo mas sim um conjunto de referencias de guarda-redes que fui admirando e que me inspiravam, começando no meu pai que foi guarda-redes (Luís Santos) e passando depois por Vítor Damas, Bento, Michel P Homme, Andreas Kopke, Vítor Baia.

 

Como começou a jogar futebol? Conte-nos a sua história.

Desde muito cedo, aos 5 anos… No tempo em que se jogava futebol na rua jogava com os meus amigos e por ver o meu pai jogar a guarda-redes aos 10 anos fui com ele jogar para um clube de bairro em Setúbal. Sempre como guarda-redes, pois era isso que queria ser e nunca joguei noutra posição.

 

Se não fosse Guarda-Redes em que posição jogaria? Tem a tentação de jogar “à frente” nas peladinhas?

Nunca me via a jogar noutra posição que não fosse guarda-redes… Nunca me passou isso pela cabeça, além de não ter muito jeito para jogar noutro lugar. Nas peladinhas gosto de jogar a defesa central, talvez pelos duelos defensivos um para um.

Algum jogo na sua carreira que se destaque, em termos individuais ou colectivos?

Numa carreira com mais de 20 anos como profissional há imensos jogos de destaque e é muito difícil escolher um, mas penso que o jogo V.Setúbal frente ao F.C. Porto em Setúbal na época 1997/98 foi aquele que me deu maior visibilidade para o futebol e projecção na minha carreira. Quando se fala em estar no dia certo na hora certa, penso que esse foi o meu momento.

Os primeiros anos

OVNI 2001?! Como assim? Quer falar-nos deste clube?

É o tal clube de bairro em Setúbal onde comecei a jogar, na categoria de infantil no campeonato distrital de Setúbal com 10 anos. Não tínhamos campo para treinar, a baliza eram duas pedras colocadas na areia e quando colocamos dois troncos de madeira a fazer de postes foi uma grande alegria… Mesmo assim vencemos o campeonato da nossa série! O treinador Ildefonso, policia de profissão, além de treinador era massagista, roupeiro, director, presidente e acima de tudo um grande amigo, que a sua principal missão era formar bons seres humanos para a vida futura. Ainda hoje quando o vejo agradeço o que fez por nós nessa altura pois vínhamos de um bairro social, o Bairro da Bela Vista em Setúbal.

Como se deu o ingresso no Vit.Setubal, ainda muito jovem?

O OVNI só tinha a categoria de Infantis e um amigo meu, o Tomé – filho do Fernando Tomé, antigo jogador e gloria do V.Setúbal – disse-me que ia haver treinos de captação para iniciados no V.Setúbal. Como tínhamos a mesma idade fomos juntos ao primeiro treino. Lembro-me que éramos cerca de 100 miúdos, dos quais 12 guarda-redes para ficarem só 4. A semana foi dura, o campo era pelado, mas os treinos correram bem e no final recebi a noticia de que ia fazer parte do plantel.

Entre as camadas jovens do Vitória, o Caldas e o Operário, algum treinador ou jogador que tenha tido um papel de destaque na sua formação?

Nas camadas jovens do Vitória fui treinado 3 anos pelo José Mourinho, hoje conhecido por todo o mundo, e que na altura estava a iniciar a sua carreira como treinador mas já demonstrava ter grandes conhecimentos de futebol, de liderança e uma cultura futebolística muito evoluída para a época. Os seus métodos de treino e a forma como se relaccionava com os jogadores dentro e fora de campo faz dele um treinador único, foi excelente ter sido seu jogador no inicio da minha carreira. Destaco também Jaime Graça, antigo jogador do Benfica e magriço do Mundial de 66, foi ele que me lançou e que me deu a conhecer com a sua experiência o mundo do futebol profissional.

Vit. Setúbal

Regressou a casa para passar algumas temporadas a aprender no banco, mas onde foi convivendo com nomes como Silvino Louro, Paulo Sérgio, Silvino Vieira, Cândido e mesmo Marco Tábuas, para muitos o seu sucessor na baliza sadina. Sente que beneficiou com a experiência?Nuno Santos

Não foram anos nada fáceis, a concorrência era forte mas enquanto esperava por uma oportunidade fui aprendendo com os meus colegas e tentava aperfeiçoar-me cada vez mais. Durante a semana fazia de cada treino um jogo e procurava ganhar maturidade para quando chegasse a minha oportunidade estar preparado. E assim foi: treinei muito, de uma forma muito intensa, e quando fui chamado para jogar estava pronto.

Em 96/97 teve as primeiras aparições no onze… Recorda-se de como apareceram as oportunidades? Que tal foi a estreia na I Liga?

A estreia foi no dia do meu aniversário, 20 de Abril de 1996! Entrei aos 5 minutos de jogo, infelizmente para substituir um colega meu, o Cândido, que se tinha lesionado. O jogo correu-me bem e na semana seguinte foi a minha estreia a titular no Estádio José Alvalade frente ao Sporting C.P. Fiz novamente uma boa exibição e prometi logo a mim mesmo que depois de tanto tempo á espera não podia deixar passar esta oportunidade – e assim até final da época consegui continuar manter um bom nível.

E depois de repente aquela época de 1997/1998, em que o Vit.Setúbal apostou tudo em si, não contratando nenhum nome para lhe fazer concorrência. Não sentiu a responsabilidade?

Senti, era uma enorme responsabilidade! Tínhamos a equipa mais jovem do campeonato, mas eu só pensava em treinar e fazer bons jogos, até porque sabia que tinha a confiança dos meus colegas e do treinador que tinha apostado em mim, o Manuel Fernandes – foi ele que me lançou no V.Setúbal. Para além de tudo isso acreditava no meu trabalho diário e só queria ser o melhor em todos os jogos. Havia pressão, mas era uma pressão que eu gostava pois estava a realizar o meu sonho de criança.

 

Acabou por assinar uma temporada extraordinária, com várias exibições de grande nível que o colocaram mesmo como a grande figura do plantel desse ano. Suponho que não tenham faltado convites para além de Inglaterra…

Foi uma época muito boa, com muitos bons jogos e tinha uma equipa à frente que me ajudou imenso. Já nos conhecíamos bem e por vezes só com um gesto ou um olhar eles já sabiam o que eu ia fazer e tudo se tornava mais fácil. No final tive vários convites de equipas nacionais e estrangeiras mas mesmo assim por incrível que pareça as coisas nunca mais se resolviam, e quando já menos esperava surgiu o convite do Leeds United de Inglaterra. O treinador George Graham recolheu informações minhas ao Bruno Ribeiro que tinha jogado comigo, e já me tinha visto jogar, e como gostou dos meus jogos e queria um guarda-redes jovem, contratou-me. Penso que foi o melhor convite que podia receber.

Leeds, a primeira aventura

A aventura em Inglaterra foi a sua primeira passagem pelo estrangeiro numa altura em que estava a consolidar capacidades. O que o motivou a escolher o Leeds?

Penso que depois de realizar bons jogos no V.Setúbal estava preparado para novos desafios, e com o convite do Leeds United ia ter a oportunidade de poder competir no melhor campeonato do mundo. Acabamos por ficar em 4º lugar no campeonato e fomos bastante longe na Taça UEFA e em termos colectivos foi uma época muito positiva, pois foi o inicio de uma geração de ouro do Leeds United.

Segundo a imprensa contrastou grandes jogos pelas reservas do Leeds com zero oportunidades na equipa principal. Olhando para trás, não estava preparado para jogar na Premier League ou sentiu que estava em desvantagem em relação aos outros guarda-redes?

É verdade que foi um passo enorme na minha carreira como jogador de futebol profissional mas sinto que estava preparado, só que a concorrência era enorme! O dono da baliza do Leeds era “só” o numero 2 da selecção inglesa, o Nigel Martin… Como era um ano de aprendizagem poder treinar e jogar com grandes jogadores já ia ser muito importante para mim, e uma vez por semana ia jogar no campeonato de reservas. Esses jogos correram muito bem e sentia que evoluía de semana para semana.

Regressou a Portugal no final da temporada. Não terá sido um retorno prematuro? Face ao que produziu nas reservas não pensa que se poderia impor no Leeds ou mesmo noutro emblema?

Antes de terminar a época em Leeds recebi uma proposta do S.L.Benfica, o Michel Preud’Homme ia acabar a carreira e a oportunidade de poder lutar pelo lugar de nº1 no Benfica era sem qualquer dúvida a melhor opção para mim. Um clube como o Benfica é um dos melhores do mundo e era um sonho para mim poder lá jogar.

Benfica

Regresso a Portugal para o Benfica, numa fase de renovação dos guarda-redes e onde teria a concorrência dos recém-chegados Enke e Bossio. Sentiu que podia chegar a titular? Ou assinou consciente que teria poucas oportunidades?

Alinhando pelo Benfica, para a Taça de Portugal

Alinhando pelo Benfica, para a Taça de Portugal

Quando assinei pelo Benfica, ainda antes de terminar a época em Leeds, a concorrência ia ser só o Ovchinnikov; os responsáveis queriam um guarda-redes jovem e que desse garantias para o presente e futuro. Foi com esse pensamento que vim para o Benfica, para poder ser titular, mas depois com a chegada de um novo treinador Jupp Heynkes e as graves lesões que tive logo na pré-época, onde fiquei afastado das competições por 7 meses, nunca foi possível lutar por um lugar na baliza. Mas nessa temporada ainda consegui jogar e fazer a minha estreia com a camisola do Benfica para a Taça de Portugal.

Como foi a adaptação à Luz? Sente-se na pele a grandeza do clube, mesmo depois de se ter estado em Elland Road?

A minha adaptação foi fácil pois o Benfica sendo um dos melhores clubes do mundo sabe receber e tratar com muito carinho quem lá chega. Só quem passa pelo Benfica pode dizer o que se sente ao vestir aquela camisola, e eu tive esse prazer. Tanto em Portugal como no estrangeiro são milhões de pessoas que seguem o Benfica e sente-se todos os dias a grandeza do clube na pele… em Elland Road no estádio do Leeds o ambiente é excelente e a paixão pelo futebol é enorme como é tradicional no futebol Inglês. São dois clubes diferentes, cada um com a sua grandeza.

Foi suplente no desastre de Vigo, os famosos 7-0. Pode contar-nos o que se passou nesse dia?

Simplesmente foi um jogo em que de um lado estava uma equipa a que nesse jogo tudo saiu bem e a nós não. Senti que não era o nosso dia e ficamos muito tristes como todos os benfiquistas, mas como profissionais de futebol temos de saber ultrapassar estas situações.

Abandonou a Luz no final da temporada e ainda regressaria mais uma vez, com o mesmo sucesso da vez anterior. Quando regressou vinha com alguma ilusão ou já só esperava desvincular-se?

Saí porque depois de uma época com várias lesões tinha mesmo de jogar. A melhor opção era ser cedido para depois poder voltar e foi isso que aconteceu, depois de rodar no Santa Clara e Beira-Mar e de ter feito boas exibições. Quando regressei ainda tinha mais um ano de contrato e a prova que o Benfica acreditava nas minhas capacidades foi a proposta de renovação por mais 3 épocas.

Mesmo tendo jogado pouco faz um balanço positivo da passagem pelo Benfica?

Chegar a um clube desta dimensão não é fácil e ainda foram 6 anos que fiquei com ligação a um dos maiores clubes de futebol. Sinto que foi positivo apesar das oportunidades não terem sido muitas – o que é normal dado que concorrência num grande clube como o Benfica é enorme – mas sempre que fui chamado a jogar penso que cumpri. Finalmente, por ter jogado no Benfica e devido à sua grandeza têm-se aberto muitas portas na minha vida profissional e particular, pelo que só tenho a agradecer o que o clube fez por mim.

Concorreu e conviveu com Enke. Foi apanhado de surpresa pelo seu falecimento?

Foi um choque enorme para mim, depois do Féher era o segundo colega que perdia num curto espaço de tempo embora por situações diferentes. O Enke era uma pessoa muito exigente com ele próprio e via-se que não era uma pessoa feliz na sociedade em que vivemos. Ele gostava que as coisas fossem perfeitas, a maneira como as pessoas vivem no dia a dia e as injustiças que a vida tem mexiam mesmo muito com ele – mas só ele poderia explicar o porquê da sua decisão.

Badajoz e Santa Clara

Quando chegou vinha apontado como aposta para o futuro, mas volvido um ano abandonou a Luz. Esperava sair tão cedo do Benfica?

Claro que não esperava sair mas depois da lesão grave na pré-época passei praticamente toda a época parado. A melhor opção era sair para depois poder voltar e competir por um lugar na equipa, e assim fui cedido por empréstimo para Espanha.

Por falar nisso, que se passou em Badajoz? A imprensa apontava-o como titular, mas acabou por nem se estrear na 2ª Liga…

Por vezes acontecem situações no futebol que não deviam acontecer e passado pouco tempo de ter chegado ao clube quis sair. Não me via num bom clube, mas sim num onde os jogadores estrangeiros não eram tratados de forma igual. Chegamos rapidamente a um acordo e foi o melhor para todos.

Depois de Espanha o que o levou a optar pelo Santa Clara, então na 2ª Divisão de Honra? Teve propostas para continuar na 1ª Divisão?

O motivo foi que na altura o Manuel Fernandes estava a treinar o Santa Clara e convidou-me, ele que foi o treinador que me lançou no V.Setúbal. O mister queria colocar o clube na primeira e o facto de ele acreditar nas minhas capacidades… nem pensei duas vezes. Subimos de divisão e prontos, estava de novo na primeira liga.

Não tinha jogado muito nas últimas 3 temporadas – sentiu a falta de competição?

Sentia que ainda tinha capacidades para evoluir, e o facto de não jogar regularmente como vinha a acontecer deixava-me triste. Mas os níveis de confiança, esses, mantinha-os comigo e a prova é que quando comecei a jogar novamente não se notou a minha falta de jogos e conseguimos colocar o Santa-Clara na primeira liga.

Beira-Mar

Regressou à primeira divisão envergando as cores do Beira-Mar. Determinado a recuperar a carreira?

Fui cedido novamente pelo Benfica porque havia a necessidade de jogar com mais regularidade e foi importante para mim ingressar no Beira-Mar, pois iria ter novamente a oportunidade de jogar na Primeira Liga portuguesa e voltar a realizar boas exibições para relançar a minha carreira. E foi isso mesmo que veio a suceder.

O Beira-Mar começou bem a época mas depois pareceu quebrar um bocado, situação que é comum noutras equipas da mesma dimensão (aconteceu com o Rio Ave no ano passado, por exemplo), na sua opinião a que se devem estas quebras? Lesões? Libertar da pressão por garantir o objectivo manutenção cedo?

Acho que a época no Beira-Mar correu bem mas de facto tivemos uma quebra de resultados no princípio da segunda volta. Sinceramente não consigo explicar o porquê, felizmente que depois voltamos ás vitórias e conseguimos uma boa classificação final.

Assinou mais uma boa temporada em termos individuais e os alvi-negros conquistaram a permanência – aposto que na altura não pensava que não voltaria a alinhar na 1ª divisão.

O facto de realizar um bom campeonato fez com que eu regressasse ao Benfica novamente, e a concorrência iria ser outra vez mais elevada. São esses desafios de que sempre gostei, pois se me sentisse acomodado teria optado por ficar a jogar num clube que não tivesse a dimensão e o prestigio do Benfica.

Santa Clara

Depois então de mais um ano parado no Benfica e um breve retorno a Setúbal, regressou aos Açores e ao Santa Clara, conseguindo duas óptimas temporadas. Algumas memórias que queira partilhar?

Pose de início de temporada

Pose de início de temporada

Essencialmente foi óptimo poder trabalhar com o melhor treinador de guarda redes que conheci, o Lucien Huth, que foi treinador no Benfica e do Michel Preud’Homme durante anos. Senti que a cada dia que passava evoluía ainda mais e gostava de ter tido a oportunidade de ter feito a minha formação de guarda-redes com ele. Os seus métodos de treino e o seu profissionalismo são reconhecidos mundialmente.

As boas exibições valeram-lhe a admiração dos adeptos, mas trouxeram-lhe algum convite ou sondagem de patamares superiores?

O facto do Lucien Huth ser o meu treinador e um ídolo para mim não equacionava outras opções, o clube tinha um projecto em que eu fazia parte e as condições que me foram apresentadas eram boas.

Após a primeira época de regresso ao Santa Clara foi complicada, ao contrário do habitual a equipa teve que lutar pela manutenção, ficando muito abaixo dos objectivos iniciais. O que correu mal?

Era o inicio de um projecto com uma equipa completamente nova numa fase de transição do clube, com jogadores experientes e alguns jovem com grande valor individual mas que se estavam a conhecer como equipa. Felizmente conseguimos melhorar e a manutenção foi conseguida.

Perdeu a titularidade após uma derrota por 1-0 em Guimarães, sente que essa alteração foi justa? O Santa Clara estava com um início de época complicado, e após a entrada de Botelho a equipa acabou por subir na classificação. Pensa que estes dois factos estão relacionados?

Penso que o projecto com que eu me identificava tinha chegado ao fim, o meu treinador de guarda-redes tinha saído, e sentia que o melhor para mim era partir também. Com mais um ano de contrato cheguei então a acordo com o clube, mas mais tarde os responsáveis do clube que não queriam que eu saísse vieram dar-me razão pelo que eu pensava na altura.

 

Acabou por realizar mais jogos pelo Santa Clara do que por qualquer outro emblema. Considera-se adoptado pelos Açores?

Nunca fui um jogador de me acomodar e ficar muito tempo num clube, sempre procurei novos desafios, mas o que me fez ficar mais tempo nos Açores como já referi foi mesmo o Lucien Huth. Sinto que as pessoas reconheceram o meu trabalho tanto como noutros locais em que joguei.

Rochester Rhinos e Toronto FC

Se não me falha a memória, a transferência para a América tinha objectivos extra-futebol, nomeadamente a colaboração com a Euro Star Goalkeeper Academy. Quer contar-nos essa história?

O convite para jogar na América surgiu através de um colega, o Nuno Almeida, que jogou comigo nas camadas jovens do V.Setúbal. A equipa Rochester Rhinos queria contratar um guarda-redes e ele indicou-me, o treinador mostrou grande interesse e fui contratado. Mas muito antes disso já o proprietário da Euro Star já me tinha convidado para ser o principal treinador de guarda-redes, só que como estava a jogar em Portugal não me era possível, e quando fui para o Rochester Rhinos como me encontrava a 2 horas de viagem de Toronto onde se encontrava a academia comecei como treinador de guarda-redes.

Foi dificil conciliar a carreira de futebolista com a de professor?

Tinha uma vontade enorme de começar a passar para os mais jovens tudo o que tinha aprendido e talvez começar a preparar o meu futuro. No início comecei a ir uma vez por semana ao Canadá apenas no meu dia de folga, mas depois se tinha dois dias livres ficava passava-os inteiros a dar treinos aos guarda-redes. Para mim não era difícil embora tivesse que me deslocar por vezes duas vezes por semana, gostava imenso do que estava a fazer. Depois fui jogar para Toronto e tudo ficou ainda mais fácil. Fui convidado para fazer uma parceria com a academia e fiquei um ano como principal treinador de guarda-redes e coordenar toda a parte de treinos.

Ser um ex-atleta de dois grandes de Portugal como o Benfica e o Vitória, e ainda ter uma passagem pelo Leeds no currículo trouxe-lhe algum mediatismo logo à chegada?

Foi e tem sido um excelente cartão de visita, pois tanto nos Estados Unidos como no Canadá o currículo de um jogador profissional de futebol tem muito valor.

Como foi a adaptação ao estilo de vida norte-americano? Quais as principais diferenças em relação ao estilo de vida português?

A adaptação teve de ser muito rápida, pois passados dois dias de ter chegado já estava a fazer o meu primeiro jogo. O estilo é muito diferente e as diferenças são enormes: desde a vida no dia a dia, a comida, o clima… mas sem dúvida alguma são dois países de oportunidades, também derivado da sua grandeza.

Como encaram os americanos e canadianos o “soccer”? Tinham muito público nos estádios?

Os estádios estavam sempre cheios e a paixão pelo futebol é muito grande, embora a cultura deles não considere o futebol o desporto numero um como noutros países; mas utilizam a mesma máquina de marketing que usam nos principais desportos do país para enriquecer o futebol. E assim não é por acaso que tanto os Estados Unidos como o Canada estejam cada vez mais próximos do nível das melhores selecções, basta lembrar que os Estados Unidos têm estado presentes nas últimas fases finais de campeonatos do mundo…

Esteve em Toronto, cidade com uma grande comunidade luso-descendente, teve algum contacto com esta comunidade?

Tive, pois a comunidade portuguesa em Toronto é enorme e muito acolhedora para quem chega de novo, e tive a sorte de conhecer pessoas fantásticas que ajudaram a que a minha adaptação fosse mais fácil. O meu grande amigo Nuno Policarpo – um grande adepto do Benfica e massagista de futebol – não consigo traduzir em palavras tudo o que tem feito e continua a fazer por mim ainda hoje, pois todos os anos vou a Toronto para dar treinos a guarda-redes. O Armando Costa (Rilhas), grande jogador de futebol na década de setenta na liga Americana e agora treinador de futebol no Canadá tem imenso conhecimento de futebol e que me tem ajudado imenso em projectos de futebol no Canadá.

Regresso a Portugal

O retorno à pátria foi abrupto – pelo menos não havia qualquer rumor sequer do seu interesse em regressar – e apanhou muita gente de surpresa.

De facto não pensava regressar a Portugal mas como não havia possibilidade de levar a minha família para o Canadá optei por regressar, pois nem tinha possibilidade de me deslocar a Portugal com a frequência que desejava.

Gondomar apresentou-lhe um projecto interessante, ou estava disposto a jogar em qualquer lado para regressar?

Houve a oportunidade de jogar no Gondomar, um clube onde encontrei pessoas que gostam muito do clube e de futebol. Era um clube que me permitia ficar mais perto pois as minhas filhas estudam em Setúbal e assim todas as semanas podia estar com a minha família.

O plantel do Gondomar não estava preparado para a Honra, conforme se viu por ter andado sempre nas últimas posições da tabela. Na opinião do Nuno o que faltava?

Penso que o principal obstáculo foi o passado recente do clube e nessa época andamos a pagar uma factura que não era nossa. As pessoas que estavam no clube – presidente, treinadores e os jogadores – nada tinham a ver com o que se tinha passado em anos anteriores.

No ano seguinte viveu a experiencia oposta pelo Arouca: jogou pouco mas a equipa subiu. O que lhe soube melhor – jogar e descer, ou sacrificar-se no banco e ver a equipa ser promovida?

O convite para jogar no Arouca foi uma oportunidade de ser treinado por um jovem treinador e amigo: Secretário. Gostei de trabalhar com ele pois acumulei duas funções na equipa, a de jogador e de treinador de guarda-redes, e ele sempre soube distinguir as minhas funções foi bom enquanto estivemos juntos. Acima de tudo e para mim o que mais tem valor são os valores humanos, e embora tendo descido no Gondomar as pessoas são verdadeiras e o seu trabalho é feito dentro de campo de uma forma séria e honesta. Jogar mais vezes ou menos faz parte do futebol.

Chipre

…E em vez de desfrutar do regresso aos campeonatos profissionais o Nuno decidiu emigrar para o Chipre, e logo para uma equipa modesta e pouco condizente com a sua experiência. Está na altura de pensar no aspecto financeiro? Ou não surgiram propostas condizentes em Portugal?

Todos sabemos a realidade do futebol em Portugal, as condições financeiras dos clubes e por isso optei mais uma vez por sair. Surgiu um convite e um projecto a curto prazo, as condições que me foram apresentadas foram muito boas, o aspecto financeiro e as condições de trabalho que vim encontrar pesaram na minha decisão. Embora estando longe o campeonato é mais curto e tenho mais facilidade de me deslocar a Portugal, e mesmo a minha família já esteve comigo no Chipre nas férias escolares.

Quais os objectivos da equipa para esta temporada? Regressar rapidamente à 2ª divisão ou lutar pela manutenção?

O clube tem excelentes condições e para ser sincero nem eu esperava… A pré-época foi feita na Grécia e encontrei um clube organizado ao nível da Liga Sagres em Portugal. A equipa é a mais jovem do campeonato com média de 21 anos de idade, e o objectivo passa por tentar colocar o clube na segunda divisão.

Está num campeonato bem cheio de Portugueses e estrangeiros com passado em Portugal. Que tal é a vida por aí, é fácil encontrar conhecidos na rua? Que tal se tem adaptado? Como reagem os jogadores cipriotas à presença de portugueses?

O nível do futebol no Chipre tem evoluído nos últimos anos. As condições de vida são excelentes, vivo na capital Nicósia. A adaptação foi fácil, vim encontrar alguns amigos, um deles o Hélio Pinto que tinha jogado comigo no Benfica e que está agora no Apoel de Nicósia; e o Spencer que joga comigo no Ethnikos Assias. Os jogadores cipriotas receberam-me bem e tentam aprender com os portugueses, pois gostam do nosso futebol.

Portugal, Inglaterra, Espanha, EUA… Chipre. É este o último campeonato que vai experimentar ou ainda tem outras aspirações?

Talvez seja o último campeonato a experimentar como jogador de futebol mas nunca se sabe o que o futuro me reserva. São cinco países diferentes e cada um com as suas características de futebol diferentes.

Conclusões

Com base na sua longa carreira e nas várias equipas por onde passou é capaz de eleger um onze formado com companheiros de equipa, actuais ou no passado?

Guarda-Redes Nigel Martin (Leeds United)
Defesa direito Frechaut (Vit.Setúbal)
Defesa central José Rui (Vit.Setúbal)
Defesa central Figueiredo (Vit.Setúbal)
Defesa esquerdo Bruno Ribeiro (Vit.Setúbal e Leeds United)
Médio Centro David Batty (Leeds United)
Médio Centro Peixe (Benfica)
Médio Centro Hélio (Vit.Setúbal)
Avançado Nuno Gomes (Benfica)
Avançado Pauleta (Operário)
Avançado Jimmy Hasselbaink (Leeds United)

 

 

Melhor guarda-redes com quem treinou?

Em Portugal, Silvino Louro ex-Benfica. No estrangeiro, Nigel Martin ex-Leeds United.Nuno Santos Santa Clara

Qual o seu onze para a Selecção nacional?

Eduardo; Miguel; Ricardo Carvalho; Bruno Alves; Fábio Coentrão; Raul Meireles; João Moutinho; Tiago; Nani; Cristiano Ronaldo; Nuno Gomes

 

Por falar em Selecção, as ligas profissionais em Portugal têm mais estrangeiros do que nunca e a selecção nacional sofre com isso, através de uma escassez gritante de opções seleccionáveis. Tem alguma ideia sobre como dar a volta a esta situação?

Vejo toda a gente a falar que se tem que apostar na formação em Portugal, mas depois quando os jogadores sobem ao futebol profissional não são aproveitados. A pergunta que eu faço é: porquê? Na minha modesta opinião hoje em dia não encontramos muita quantidade de bons jogadores jovens; há qualidade mas num número muito reduzido e porquê? Tem que se dar a esses jovens mais condições de trabalho, mais condições financeiras, e mais bons treinadores, com valor – treinadores com conhecimento de futebol e de qualidade, não baratos. Mas actualmente faz-se precisamente o contrário: queremos gastar pouco na formação e depois tirar grandes dividendos e lucros. Se criarmos bons jogadores portugueses jovens e os preparamos para o futebol profissional quando tiverem a sua oportunidade vão estar aptos para corresponder, tanto a nível de clubes como na Selecção.

Teve uma carreira bastante respeitável. Alguma mágoa por nunca ter tido sido chamado a representar a selecção, especialmente nos seus anos mais mediáticos? Alguma vez isso esteve perto de acontecer?

Nas minhas melhores épocas no futebol nessa altura olhava-se de uma maneira diferente para os jogadores que poderiam ser seleccionáveis, e excluiam-se os que não jogassem numa equipa grande como era o meu caso que jogava no V.Setúbal. Felizmente que hoje já não se pensa assim, mas sim no momento de forma actual do jogador. Houve uma altura que podia estar perto de acontecer mas a concorrência era muito forte e foram tomadas outras opções por guarda-redes mais experientes. Não guardo mágoa alguma, para mim ter chegado a dois grandes clubes do futebol mundial como o Benfica e o Leeds United já foi um sonho tornado realidade.

O que é mais benéfico para um guarda-redes – jogar regularmente em divisões inferiores ou estagiar no banco atrás de grandes figuras? O Nuno viveu as duas situações, o que acha?

Em toda a minha carreira sempre tive uma forma de estar de nunca me acomodar ao que é mais fácil. Procurava sempre um clube onde pudesse ter a oportunidade de jogar, e por vezes aconteceu abdicar financeiramente – aconteceu mais do que uma vez – só para poder jogar. Acredito que esta é a melhor opção, lutar por um objectivo, mas respeito quem pensa o contrário.

Ao fim de tantos anos de carreira nota alguma evolução no posto de guarda-redes? Defende-se da mesma forma que há 15 anos atrás?

Claro que não, pois se os jogadores de campo evoluíram os guarda-redes também tiveram de evoluir. O futebol de hoje é mais rápido, com passes mais rasgados nas costas da defesa; os cruzamentos mais tensos e rápidos; os jogadores quando aparecem isolados na cara do guarda-redes tentam finalizar de cabeça levantada; e os guarda-redes tiveram de se adaptar até a novas bolas hoje mais leves e imprevisíveis. Tudo mudou!

Especialmente em Inglaterra, mas também em vários outros países é comum as equipas de primeira divisão contratarem guarda-redes muito experientes – alguns mesmo em pré-reforma – como terceira opção para a baliza, não só pela fiabilidade mas também para passarem a sua experiência aos mais jovens. Em Portugal são raríssimos esses exemplos. Somos mais cegos que o resto da Europa ou há outros factores – o que pensa o Nuno?

Concordo plenamente desde que um guarda-redes tenha as suas capacidades de poder responder se assim for necessário e também tem de ter aptidões para passar os seus conhecimentos é uma combinação perfeita. Infelizmente em Portugal nesse aspecto a mentalidade do futebol português não está preparada para essas situações o que é pena daí neste momento não existir no nosso país uma grande quantidade de guarda-redes de qualidade.

Viajou muito e representou clubes de grande dimensão, tendo um percurso bastante mediático. Qual o papel da imprensa e dos empresários na sua carreira?

Na minha carreira foi mais importante o papel da imprensa do que dos empresários. Se um jogador tiver a sorte de encontrar um empresário que defenda os interesses do atleta em primeiro lugar os dois só teem a lucrar no futuro, mas por vezes não é isso que acontece. Os jogadores também devem e têm de ter um papel importante nessas decisões de gestão de carreira. Eu gostava de ter encontrado uma pessoa que pudesse ter tratado de tudo na minha carreira e eu só tivesse que me preocupar em jogar e treinar mas comigo não foi assim, e mesmo assim penso que tomei as decisões correctas.

A imprensa é imprescindível na carreira de um jogador de futebol e por vezes era bom que o jogador de futebol profissional pensásse nesse aspecto, pois a divulgação do seu trabalho é feita pelos jornalistas. Mas por vezes também é verdade que – como em tudo na vida – maus profissionais que trabalham na imprensa podem acabar coma a carreira de um jogador de futebol.

Olhando para trás, mudava alguma coisa no seu percurso?

Prefiro olhar em frente e poder escolher as melhores opções para a minha carreira actual e no futuro. Não alterava nada nas decisões que tomei pois na altura pareceram-me as mais lógicas e acertadas para a minha carreira. Mas recentemente cheguei a uma conclusão: não me devia ter preocupado tanto em encontrar respostas para as injustiças que por vezes eram e são cometidas no futebol profissional por pessoas que não deviam nem merecem estar no futebol profissional, porque mais tarde ou mais cedo acabam por serem reveladas no futebol e na vida.

Agora que o final de carreira se aproxima, já sabe quando vai ser a altura para parar e o que vai fazer a seguir?

Neste momento sinto-me em perfeitas condições para poder jogar mais uns anos, mas a minha decisão de continuar a jogar ou não vai passar pelos convites que me forem apresentados. Posso dizer que estou há alguns anos a preparar o meu futuro que penso que vai passar por treinar guarda-redes, tenho uma enorme vontade de passar todos os meus conhecimentos para os mais jovens. Neste momento estou a conciliar as duas coisas mas quando sentir que já não tenho motivação para jogar e treinar de uma forma profissional diariamente é a altura de acabar a minha carreira e dedicar-me a outra grande paixão, ensinar e dar treinos a guarda-redes.

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Ricardo Nuno Almeida • Julho 7, 2014


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